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  • Boletim 277 - O “PAI NOSSO” É NOSSA PRIMEIRA ESCOLA DE ORAÇÃO
    14/10/2018

    Jesus ensina aos discípulos os princípios da oração (Lucas 11. 1-4) e, depois, tê-los transformados em uma oração para uso público (Mateus 6. 9-13). No primeiro caso, Jesus respondeu à solicitação dos discípulos impressionados pela maneira usada por João Batista para ensinar os discípulos dele a orar.  No segundo, ele atacou as orações hipócritas dos fariseus, mais interessados em impressionar os conterrâneos judeus que na comunicação com Deus.

    Após Jesus ensinar aos seus discípulos como eles deveriam orar, em contraposição à oração dos fariseus, que hipócrita, e à dos pagãos (gentios – não judeus), mecânica, a oração, a oração dos cristãos deve ser real; sincera em oposição à hipocrisia, refletida em oposição à mecânica. Jesus quer que nossas mentes e corações se envolvam no que estamos dizendo. Então, a oração é vista como deve ser, não como uma repetição de palavras sem significado, nem como um meio de autoglorificação, mas como uma verdadeira comunhão com o nosso Pai Celeste.  Com as palavras de Jesus, em Mateus 6. 8, ele afirma que Deus Pai não é ignorante para que precisemos informá-lo, nem hesitante para que precisemos persuadi-lo.

    Agora Ele lhes dá um modelo de oração. Essa oração conhecida como “Pai Nosso”, foi dada aos discípulos, não para ser memorizada ou recitada determinadas vezes. Pelo contrário, Jesus lhes deu essa oração para evitar que eles usassem de vãs repetições como os pagãos o faziam. Jesus não disse para eles orarem usando aquelas palavras, mas como uma oração modelo. Em outras palavras o Senhor estava dizendo assim: “orem dessa forma” e não “orem com essas palavras”.

    A chamada “oração do Pai-Nosso” foi dada por Jesus como modelo da genuína oração cristã. De acordo com Mateus, ele a deu como modelo a ser copiado (“Portanto, vós orareis assim”); de acordo com Lucas, uma forma para ser usada (11.2, “Quando orardes, dizei...). Assim, podemos usá-la como é e também  como modelo para as nossas próprias orações.

    Todavia, quando olhamos o contexto em que esta oração foi ensinada, vemos governo (no caso o império romano) cheio de corrupção, violência,  adultério, estupro, perversidade, injustiça, idolatria, maldade... E também na parte espiritual vemos o príncipe deste mundo (Satanás) atuando gerando uma possessão  maligna na vida das pessoas  e uma opressão maligna na vida dos discípulos.

    Diante, de todo cenário desastroso, vemos na oração do Pai Nosso, uma suplica pedindo uma intervenção divina, ou seja, a manifestação poderosa e misericordiosa da parte de Deus.

    O QUE APRENDEMOS SOBRE A ORAÇÃO:

    1. A Teologia da oração: Ao orar deves crer que ocorrerá uma transformação em você, não em Deus.

    2. Atitudes erradas na oração: Ao orar não deves tentar convencer a Deus de fazer a tua vontade.

    3. O propósito da oração: Ao orar deves esperar que a vontade de Deus converta em tua vontade, não a tua vontade na vontade de Deus.

    Assim também, nós igualitariamente vivemos num contexto moldurado por uma situação caótica, confusa, desordenada, desarrumada, desgovernada... Dessa forma, suplicamos uma intervenção já de Deus para transformar, melhorar o nosso contexto sempre esperando e confiando na intervenção divina.

    Assim vemos nessa súplica com fundamentos importantes, para alicerçar a nossa esperança quanto a manifestação divina concedendo-nos uma transformação de nossas vidas e também do contexto em que vivemos.   Uma transformação mediante a Sua soberania.

    O “Pai Nosso” é nossa primeira escola de oração. Nesta súplica Jesus nos ensina que a oração não é uma ferramenta técnica, usada para excitar nossa curiosidade. Pelo contrário, ela nos envolve num exercício de fé e compreensão da realidade que está além da ciência. Ela não é um meio de manipular a criação, mas uma forma de compreender e penetrar na realidade dela.

    Em um período de polarizações, onde as opiniões pessoais se tonaram a regra, baseada na premissa de pensar “O Brasil que EU quero”. Entendemos que precisamos levantar nossos olhos para o alto, e refletir sobre quais os valores que o Criador tem para o nosso povo.  E também, a forma com a qual Ele quer nos usar como agentes de transformação.  Por isso, começamos em outubro uma nova série com o tema: “O Brasil que Deus quer”.

    Rev. Carlos Roberto

  • Boletim 276 - O BRASIL QUE DEUS QUER
    07/10/2018

    Em um período de polarizações, onde as opiniões pessoais se tonaram a regra, baseada na premissa de pensar “O Brasil que EU quero”. Entendemos que precisamos levantar nossos olhos para o alto, e refletir sobre quais os valores que o Criador tem para o nosso povo.  E também, a forma com a qual Ele quer nos usar como agentes de transformação.  Por isso, começaremos em outubro uma nova série com o tema: “O Brasil que Deus quer”. Refletiremos nesta nova série de mensagens: 07/10: Intervenção já; 14/10: Pão sem circo; 21/10: Pratos limpos; 28/10: Sem impeachment. Sendo que, estas mensagens serão  extraídas da Oração do Pai Nosso, texto básico de Mateus 6. 9-13.

    Já nesta pastoral, bem como, o sermão do culto deste domingo, meditaremos  na primeira parte da Oração do Pai Nosso, em Mateus 6. 9,10: “Pai nosso, que estais nos céus! Santificado seja o Teu nome. Venha o Teu Reino; seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu.”

    Quando Jesus ensinou seus discípulos a orar, à primeira vista a lição era muito simples. Aparentemente, o Mestre se limitou a dar aos apóstolos uma oração para “repetir”. Só que o Pai Nosso não é apenas uma oração a ser recitada mecanicamente, mas, sim, uma escola de oração. Nas suas frases existe uma revelação rica dos contornos do relacionamento entre o redimido e o seu Salvador. Nesta pastoral, desvendaremos cada frase da mais importante oração da história do cristianismo de forma clara e acessível, a fim de analisar o que o Pai Nosso nos ensina a respeito de Deus e de nossa relação com Ele. O Pai Nosso é leitura obrigatória para aquele que busca entender melhor os mistérios da oração e do relacionamento com o Pai.

    A oração do Pai Nosso contém seis petições. As três primeiras dizem respeito à glória de Deus (Seu nome, Seu Reino e Sua vontade). Já o segundo trio de pedidos se refere a nós e às nossas necessidades (o pão de cada dia, o perdão e o livramento). Uma prioridade semelhante é reconhecida nos Dez Mandamentos, quando os cinco primeiros lidam com a nossa obrigação para com Deus, e os outros cinco, com a nossa obrigação para com o próximo.

    Hoje iremos concentrar nossa atenção na glória de Deus em relação ao Seu nome, Seu Reino e Sua vontade. Um nome representa a pessoa que o tem, sua natureza, caráter e atividade. Sendo assim, o “nome” de Deus é o próprio Deus, uma vez que revela a si mesmo. Seu nome já é santo por se exaltado acima de todo nome. No entanto, oramos para que Ele seja santificado, ou seja, que receba a honra que lhe é devida em nossas vidas, na igreja e no mundo.

    O Reino de Deus é o Seu domínio real, não somente em Sua absoluta soberania sobre a natureza e a história, mas também ao ter entrado no mundo com Jesus. Orar pela vinda do Reino é orar para que ele cresça à medida que as pessoas se submetem a Jesus através do testemunho da igreja, e para que ele seja consumado quando Jesus retornar em glória.

    A vontade de Deus é a vontade dAquele que é perfeito em conhecimento, amor e poder. Por isso é tolice resistir a ela. E é sabedoria discerni-la, desejá-la e cumpri-la. Precisamos orar, portanto, para que a vontade de Deus seja feita na terra assim como no céu.     

    É relativamente fácil repetir as palavras do Pai Nosso como um papagaio, ou como um “tagarela” pagão. Orá-las com sinceridade, contudo, tem implicações revolucionárias. Nossa prioridade se torna não mais a promoção do nosso insignificante nome, reino e vontade, mas do de Deus. Conseguirmos orar essas petições com integridade será um teste de busca da realidade e da profundidade de nossa profissão cristã.

    Assim sendo, devemos cumpri-la aqui na terra, como ela já é cumprida no céu. Não devemos ignorar a realidade de violência, insegurança e descaso ao nosso redor, mas devemos trabalhar para que essa realidade seja transformada pela ação cristã.  O nosso testemunho deve ser oferecido ao mundo não somente na forma de evangelização, mas também de caráter transformado e real interesse pelos outros e pela vida na terra, até que Cristo volte e restaure todas as coisas definitivamente. Até lá temos muito que fazer.

     

    Rev. Carlos Roberto (Bob)

  • Boletim 275 - A ESPIRITUALIDADE DO REINO DE DEUS
    23/09/2018

    (Leia: Marcos 9. 33-42)

    Jesus não tinha casa. Estabelecera seu ministério na casa da sogra de Pedro, em Cafarnaum, onde muito provavelmente morava como hóspede. Certo dia, caminhando pela Galiléia com os seus discípulos, Jesus aproveitou a intimidade do momento para anunciar-lhes a sua morte. Ele deixou bem claro que, quando fossem para Jerusalém. Ele seria preso e condenado à morte pela elite religiosa da época. Os discípulos, no entanto, ouviram esse recado de Jesus sem se abalar. Permaneceram impassíveis, como se aquelas palavras não fizessem sentido algum para eles.

    Ao chegarem a Cafarnaum, já em casa, hospedado. Jesus pareceu incomodado por ter aberto seu coração e sentido a indiferença dos discípulos, pois perguntou-lhes sobre o que vinham conversando no caminho. Ao ouvir a pergunta, os discípulos se calaram. E Marcos denúncia: calaram-se porque no caminho, enquanto Jesus falava sua morte, eles discutiam entre si sobre quem era o maior.

    Nesse texto, observamos o Senhor Jesus transmitindo aos seus discípulos os valores do seu reino, para que eles pudessem ter uma espiritualidade norteada por Deus e não pelos seus interesses.  A reação deles, porém, prova que ainda eram carnais. Com um grupo em tais condições, Jesus certamente poderia montar uma grande empreitada religiosa, se quisesse, mas jamais conseguiria estabelecer uma espiritualidade que ensinasse os valores o reino de Deus. O sistema de valores dos discípulos era incompatível com o do reino. Pode-se montar um império religioso baseado na lógica humana, mas tal império não terá nenhuma relação com o verdadeiro reino de Deus.

    A igreja não é o reino de Deus. Ela tem responsabilidade de transmitir os valores do reino, que não será estabelecido com triunfalismo, e sim por meio de homens e mulheres de coração quebrantado e contrito aos pés de Jesus, dizendo: “Senhor, ensina-me”. É na nossa fraqueza que o poder de Deus se aperfeiçoa, quando nos reconhecemos carentes de sua glória. 

    A lição que Jesus deixa aos discípulos é clara: você não pode se gloriar de estar comprometido com Deus enquanto estiver buscando os seus próprios interesses. Não diga a Deus: “Senhor, eu faço tudo por ti”, se você gasta a maior parte do tempo com você mesmo.

    Aprendemos com o texto que só poderemos ser agentes do reino se formos construtivos. Pois, nunca seremos promotores do reino se a nossa fortaleza depender da destruição do próximo. O pior no caso dos discípulos é que eles procuravam destruir aquele que lembrava a falha deles (Leia Marcos 9. 17,18). É como o aluno que tira notas ruins no colégio e passa a desprezar e difamar o que tira nota 10. Há um ditado popular que diz: “Só se jogam pedras em mangueira cheia de mangas”. Ninguém joga pedra em árvore que não tem fruto. É como o sujeito que passa na rua e risca o carro do outro, porque aquele carro lhe faz lembrar daquilo que gostaria de ter e nunca teve.

    A espiritualidade do reino nos ensina que se você se dispõe a servir a Deus porque deseja prosperar no seu projeto egoísta de vida, está desqualificado. Você está usando Deus, tentando colocá-lo a seu serviço. O cristianismo propõe a perda da dimensão do “eu” e uma nova existência para a realização dos projetos de Deus. O reino consiste em morrer para si mesmo e viver para Deus: “Convém que Ele cresça e que eu diminua” (João 3.30).

    A espiritualidade do reino consiste estabelecermos pontes de amor, de graça e de vida. Jesus corrige a atitude presunçosa e soberba dos discípulos, dizendo que aquele que fizer tropeçar um desses pequeninos não está contribuindo para o reino, e sim cometendo um ato digno de morte (Marcos 9.42).

    Assim, a nossa oração deve ser esta: “Senhor, que venha o teu reino na minha vida, para que eu possa ter uma espiritualidade com intenções e ações norteadas pelo teu reino. Alimente em mim o desejo de estabelecer relacionamentos saudáveis e edificantes, para que o teu reino cresça através de mim”.

    Rev. Carlos Roberto (Bob)

  • Boletim 274 - UMA ESPIRITUALIDADE MENOS MÍSTICA MAIS PRÁTICA
    16/09/2018

    Jesus deixou a Judéia em direção a Galiléia. Ele tinha de passar por Samaria. Ele chegou a  Sicar, localizada nessa província e, sentou-se, cansado e sedento, junto à fonte ou poço de Jacó. Ali, envolveu-se numa conversa com uma mulher samaritana de vida imoral. O Senhor pediu-lhe que lhe desse de beber; falou com ela acerca da água viva que ele mesmo era capaz de suprir; contou-lhe que esta água viva, não somente tiraria a sede, mais impediria que ela tivesse sede novamente; revelou-lhe os segredos  da vida imoral que ela levava; mostrou-lhe o caráter da verdadeira adoração, e, finalmente , lhe disse ser ele o Messias.

    O coração da mulher rebelou-se contra a revelação de sua vida pecaminosa, e tentou mudar o assunto. A primeira impressão é que a mulher está no controle da situação, dando a ideia de que o Senhor estava se deixando desviar  de seu objetivo. No entanto, mesmo sem entender, essa mulher estava sendo conduzida na direção estabelecida pelo próprio Senhor.

    Será que essa mulher,  ao tentar evadir-se do assunto real, não é, em sua natureza, um símbolo do pecador? O exemplo de Cristo, ao dirigir-se a ela, é um exemplo que devemos seguir, ao pregarmos aos perdidos?

    Esta seção mostra uma série progressiva de surpresas. Pouco a pouco, Jesus revela quem ele é, e, em concordância com esta autorevelação, progressiva, a confissão da mulher avança, tendo ela primeiramente visto nesse estranho um judeu, depois um profeta e, finalmente, o Cristo.

    Quando os discípulos, no momento providencial, voltaram de Sicar, depois de terem feito suas compras, foram tomados de surpresa ao ver o Mestre conversando com uma mulher.

    A mulher ao receber a revelação de Jesus, e depois da chegada dos discípulos, se apressa em voltar à vila para contar ao povo as grandes novas.

    Enquanto ela esta em Sicar, os discípulos de Jesus, ao redor do poço, aprenderam que a necessidade que o Senhor tinha de alimentar-se não se comparava com sua satisfação intensa em trazer aquela mulher das trevas para a luz, cumprindo assim a vontade do Deus Pai. Quando os samaritanos se aproximaram de Jesus, ele exortou seus discípulos a olharem aquela multidão como uma colheita espiritual.

    Os samaritanos, ao aceitarem Jesus pela fé, mostram um progresso na fé claramente observável nesta narrativa, com Jesus sendo considerado, primeiramente, apenas um judeu comum, depois com um profeta, então o Messias e, finalmente, sendo chamado o Salvador do mundo.

    A história da mulher samaritana é contada por meio das coisas que dão concretude à vida – tomar água, calor, cansaço, poço, compras, comida, diálogos, verdade, marido, templo, pessoas, relacionamentos. Nessa história bíblica complexa e dramática, observamos a tapeçaria da vida com toda a sua ingenuidade, ignorância, reconhecimento, coragem, fraquezas humanas, e a participação de Cristo que nos desafia  e acompanha em nossa jornada de uma espiritualidade prática sem  ser fertilizada pelo misticismo, magia e fetichismo.  Por conseguinte, uma espiritualidade que confronta o nosso pecado, gera uma verdadeira intimidade com Cristo, um discipulado em Cristo e até Cristo e nos coloca em missão. 

    E também, vemos que, no diálogo de Jesus com a mulher samaritana, ele dissipa qualquer embalagem mística que uma interpretação errada possa colocar no evangelho. Dessa forma, entendemos que, no misticismo as pessoas podem se familiarizar tanto com o templo (construção), anjos, orações, Bíblia, santa ceia, batismo... e tratá-los como amuletos. Acreditam que a presença desses e participando dessas celebrações forçam Deus a se manifestar.

    Deciframos esta fé mística em nosso meio, quando hoje muitos dos que buscam as igrejas não querem conhecer a Deus, mas um deus cujo poder possam usar para seus próprios fins. Portanto, demonstram um egoísmo que continua intacto e não conseguem ver que Deus não é o gênio da lâmpada que existe apenas para atender os desejos de seu amo. A diferença do cristianismo e todas as outras religiões consistem em se estabelecer quem serve quem. No paganismo, os ídolos existem para o serviço dos homens, no cristianismo os homens são os que passam a viver para a glória de Cristo.

    Há hoje uma espiritualidade de formas esotéricas, supostamente maiores ou independentes de Deus que podem transformar a vida das pessoas.  Runas, horóscopos, cristais, baralhos compõem o leque de opções que a magia oferece no mercado religioso.

    Quando os cristãos passam a acreditar na concepção mística que as palavras têm poder em si mesmas e que uma vez pronunciadas produzem realidades, há algo diabólico. O que é fé mística? A credulidade que: objeto como a Bíblia aberta no Salmo 91 afugenta demônios; lugares como montes, geram orações mais poderosas; pessoas galgam posições de maior favor de Deus.

    Que a oração de Inácio de Loyola ecoe em nossos corações:

    “Ensina-nos, bom Senhor, a servir-te como tu mereces, a dar sem contar o custo, a lutar e não ver as feridas, a trabalhar sem buscar descanso, a esforçar-nos e não querer prêmio, a não ser o de sabermos que fizemos a tua vontade.”

                  

    Rev. Carlos Roberto (Bob)

  • Boletim 273 - ESPIRITUALIDADE CRISTÃ NA PRÁTICA
    09/09/2019

    No decurso da história da igreja cristã é possível observar que, em diversos momentos, houve distorções, equívocos e limitações na compreensão e prática da espiritualidade. Uns transformaram a devoção cristã numa experiência meramente contemplativa, enquanto outros fizeram dela uma prática especulativa, com obsessão por questões teológicas e doutrinárias.

    Por conseguinte, vemos também que espiritualidade tem sido um tema muito em evidências nos últimos tempos. A espiritualidade não é mais uma abordagem de interesse apenas de pessoas religiosas. Aliás, o entendimento e a prática da “espiritualidade” podem significar tudo ou qualquer coisa. Um dos últimos livros que li, de Afonso Murad, aborda as relações entre gestão e a espiritualidade. Várias empresas estão investindo tempo e recursos para que seus trabalhadores desfrutem de algum momento de espiritualidade. Não se descarta a possibilidade de que o propósito último das empresas seja o melhor desempenho dos trabalhadores, com vistas à produção ao lucro, e não ao desenvolvimento da espiritualidade das pessoas. Como a espiritualidade gera bem-estar, obviamente favorece melhores relacionamentos nas empresas, maior capacidade de produção e, consequentemente, o lucro.

    O ser humano é essencialmente espiritual e expressa a sua espiritualidade de muitas maneiras, principalmente através de formas religiosas. Mas há também formas não religiosas de espiritualidade. Os ateus confessos, por exemplo, podem manifestar  sentimentos e compromissos espirituais  quando envolvidos por uma causa  em favor da vida. Conheço ateus que acreditam em “energias” da natureza ou em forças humanas subjetivas que, segundo a sua crença, poderiam interferir nos rumos da vida – e isto também é espiritualidade.

    Observamos como um ateu pode possuir uma prática de justiça com critérios evangélicos sem uma prática devocional ou confessional, um religioso devoto pode conviver com uma espiritualidade alienada das práticas de misericórdia e justiça. Neste caso, contudo, esta já não será uma espiritualidade reconhecida pelos critérios do evangelho de Jesus Cristo. A espiritualidade no evangelho é fruto da fé que acolhe o encontro misterioso com Deus, refluindo em missão ao mundo através da mesma fé, que, sendo ética, está marcada por sinais de amor, justiça e paz.

    Cumprindo a minha vocação pastoral, um dia desses atendi a um convite para orar por uma senhora enferma. Ao chegar à casa, fui recebido por uma moça falando comigo com expressões firmes e contundentes. De imediato ela foi dizendo que não acreditava em nada; aceitava a oração, respeitando o desejo das outras pessoas da família. Chegando ao quarto onde a senhora estava, vi ao redor muitas pedras em forma de pirâmide. Sem emitir qualquer juízo, fiquei surpreso com as palavras da menina que há pouco  se confessara descrente de tudo: “Eu coloquei essas pedras porque elas emitem energias positivas e poderão ajudar a curar a minha mãe”.  Imagina se ela acreditasse em alguma coisa! Podemos ver, então, que há várias formas de espiritualidade e de crença.

    Pois bem, conforme as práticas de espiritualidade na vitrine religiosa e secular brasileira, notamos tais enfoques: uma espiritualidade mística;  ateia; idolatra; sensitiva; fertilizada pela magia e pelo fetichismo... Traremos à nossa igreja uma série de mensagens com o tema UMA ESPIRITUALIDADE: UM CAMINHO DE TRANSFORMAÇÃO, com pregações nos cultos, pastorais nos boletins, estudos nos Grupos do Parque e palestras no acampamento. Propondo através deste tema, uma espiritualidade pratica que possa gerar mais vida do que lucro material, mais virtudes do que sucesso, mais amor às pessoas do que apego às  coisas, mais solidariedade do que competição, mais integridade e virtudes do que religiosidade e hipocrisia, mais sensibilidade humana, mais renúncia de si mesmo e coragem para lutar pela garantia de direitos para todas as pessoas.

    Entendo que a espiritualidade atual em nosso meio, carece de alicerces bíblicos. Porquanto, vemos  uma espiritualidade evangélica que se limita a seguir um manual trivial sobre “o eficaz”, “o extraordinário” ou o “sem estresse”. Essa espiritualidade fica desconectada dos temas da vida real. Logo, carece de força transformadora que vem do Espírito Santo e que demonstra a autenticidade da experiência religiosa.  Assim, vemos que os evangélicos conhecem pouco sobre espiritualidade. A crescente “religiosidade” das igrejas brasileiras é ainda carente de bases teologias e conteúdo bíblico.

    Por isso, como espiritualidade, propomos uma expressão que seja de certa forma, um regresso ao que fora proposto por Jesus e pelos seus discípulos. As palavras de Jürgen Moltmann ( teólogo reformado alemão) resumem bem o que queremos dizer:  “A conversão a Deus contém a exigência da conversão ao outro. Do encontro da fé com a realidade de opressão, nasce a espiritualidade, que pode ser expressa no amor à causa dos desfavorecidos, oprimidos, segregados, estigmatizados.”

    “Espiritualidade é colocar em prática o discernimento da vontade de Deus para a vida comunitária em todas as suas dimensões. A espiritualidade é um dom e uma tarefa.” C. René Padilha ( teólogo e missionário equatoriano).

    Então, oremos:  Pai, conceda-nos uma espiritualidade marcada e inspirada na vida do Jesus Cristo. Crucifica o nosso testemunho, para que tenhamos uma vida alicerçada na graça, no amor, na humildade, na fé e na justiça!

    Rev. Carlos Roberto (Bob)

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